Secretaria Municipal da Saúde
UBSs Indígenas oferecem cuidado exclusivo a aldeias na zona sul da capital

Vista das UBSIs localizadas na zona sul da capital; ao fundo, braço da represa Billings (Acervo/SMS)
Em uma extensão de quase 16 mil hectares no extremo sul de São Paulo, na região de Parelheiros, está localizada a Terra Indígena Tenondé Porã. O território abriga cerca de 1.500 indígenas do povo Guarani, distribuídos em 17 diferentes aldeias (tekoas), em uma dinâmica marcada pela preservação cultural, pelo vínculo com a terra e por formas próprias de organização da vida e do cuidado.
É neste cenário que estão inseridas as duas Unidades Básicas de Saúde Indígena (UBSI) da capital paulista: a Vera Poty e a Krukutu. Exclusivas para a população indígena e integrantes da Supervisão Técnica de Saúde (STS) de Parelheiros, elas oferecem atenção básica aliada à escuta qualificada e a um modelo de cuidado que articula a medicina ocidental com os saberes ancestrais do povo Guarani.
A UBSI Vera Poty completou 26 anos no último dia 15 de abril e se consolidou como referência na região. Já a UBSI Krukutu funcionava como um anexo da Vera Poty, mas há cerca de um ano e meio passou a operar com estrutura completa de Estratégia Saúde da Família (ESF), com equipe multiprofissional, consultório odontológico, farmácia, sala de vacinação e presença significativa de profissionais indígenas.
As duas unidades compartilham o mesmo princípio: oferecer assistência em saúde considerando a cultura, a língua, o território e a espiritualidade da população atendida.
Atuação exige escuta, vínculo e adaptação ao território
Em uma visita realizada à Vera Poty no mês de março, a gerente Karen Mascarenhas destacou que o trabalho exige mais do que técnica. Segundo ela, atuar em uma UBS indígena pede sensibilidade para compreender a dinâmica local e disposição para rever referências trazidas de fora. “O acolhimento tem que ser diferenciado. Tem que ter empatia e respeitar a cultura acima de tudo”, afirmou a enfermeira de formação.
A gestora explicou ainda que a unidade atende aldeias com perfis e distâncias diferentes, em uma área extensa, onde algumas comunidades ficam a 15 minutos da UBS, enquanto outras estão a cerca de uma hora.
Para alcançar essa população, médicos, enfermeiros e técnicos de enfermagem realizam visitas periódicas às aldeias mais afastadas, levando consultas, acompanhamento de condições crônicas, resultados de exames e orientações de tratamento.
Outro aspecto que chama a atenção é a composição da equipe, que conta com forte participação indígena. Entre os profissionais estão oito agentes de saúde indígenas, além de outros trabalhadores da própria comunidade, como o segurança, uma auxiliar de limpeza, um jovem aprendiz, agentes de saneamento e APA (agente de promoção ambiental), fator que fortalece o vínculo e facilita a comunicação com os usuários, já que muitos ainda falam o guarani.
Ao falar sobre sua experiência no território, Karen mencionou o impacto do cotidiano da aldeia em sua própria forma de compreender o cuidado. “A primeira coisa que mais me marcou foi a paciência. E aprendi o silêncio”, diz. “Quando você acalma a mente, você acalma o corpo.”
Cuidado compartilhado no dia a dia da comunidade
Essa lógica aparece também na fala do agente indígena de saúde Germano da Silva Jexaka Mirim, 53 anos, nascido no território e um dos profissionais mais antigos na ponte entre a UBS e a comunidade. Ele trabalhava com artesanato, plantio e extração de palmito e, há oito anos, integra a rotina da unidade, acompanhando crianças, adultos e idosos.
Atualmente, a comunidade indígena na região sul da cidade é majoritariamente jovem, na casa dos 30 anos, e feminina. Os idosos não são numerosos. Contudo, na área de atuação da Vera Poty está a centenária dona Angelina. Vinda do Paraná, a idosa de 106 anos (completa 107 no dia 5 de maio) vive com a filha, netas e bisnetos numa das primeiras casas do acesso principal à aldeia. A neta Marciana de Castro, 31 anos, conta que na casa são quatro crianças — o caçula, Malisson, de 4 meses, completados em março, nasceu de parto normal no Hospital Municipal de Parelheiros, após o pré-natal na Vera Poty.
Para o agente indígena, a presença da UBS na aldeia é fundamental justamente porque permite somar diferentes formas de cuidado. “Tem várias doenças que a gente da aldeia precisa do apoio do não indígena, também. Então, trabalho os dois juntos”, diz Germano.
Essa integração também é ressaltada por Luciano de Lima Gabriel, 31, membro dos Conselhos Distritais de Saúde Indígena (Condisi) e liderança do território. Nascido na região, ele vê nas duas UBSs uma conquista coletiva e estratégica para garantir um atendimento mais próximo da população indígena. “Foi uma conquista grandiosa para a nossa comunidade”, afirma.
Luciano destaca ainda a importância dos agentes de saúde indígenas, sobretudo por dominarem a língua e entenderem a cultura local. “Muitas das pessoas das aldeias entendem pouco o português, então eles fazem um trabalho muito importante não só de acompanhamento, mas também de tradução.”
Na avaliação do líder, acompanhado pela equipe da Vera Poty desde os 4 anos de idade, a presença da UBS foi transformando a percepção da comunidade ao longo do tempo. Se no início havia dúvidas sobre o papel desse equipamento, aos poucos foi se consolidando a compreensão de que diferentes práticas podem coexistir. “Muita coisa a gente consegue tratar com as nossas medicinas, mas tem outras doenças que a gente precisa minimamente de um atendimento de hospital, de UPA e da unidade básica também”, explica.
Krukutu amplia acesso em área mais isolada
Na aldeia Krukutu, essa percepção também é compartilhada pelas lideranças e pelos profissionais da unidade. A enfermeira Adriana Izo, gerente da UBSI, avalia que o maior desafio está em oferecer assistência em saúde respeitando a cultura local e construindo relações de confiança. “A maior diferença é a cultura. A gente tem que atender de uma forma que respeite a cultura deles, fazendo com que tenham uma confiança na nossa equipe”, afirma.
Segundo Adriana, cerca de 35% da equipe da UBSI Krukutu é composta por profissionais Guarani, presença considerada essencial para facilitar a comunicação, especialmente com os mais idosos e com as lideranças que falam prioritariamente a língua indígena. A unidade atende, em média, 90 famílias — cerca de 320 pessoas — em uma área mais isolada e com características próprias.
Ela observa que há poucas comorbidades como hipertensão e diabetes e que os agravos mais frequentes são problemas respiratórios, relacionados tanto ao frio intenso quanto a aspectos do modo de vida local, como o uso do cachimbo e da fumaça das lareiras durante o outono e o inverno.
“Meu maior aprendizado é saber que a gente pode oferecer saúde mantendo a sustentabilidade e fazendo parceria com a cultura medicinal deles e com a nossa”, resume Adriana.
Mobilização comunitária e olhar sobre o território
A história da UBSI Krukutu também é marcada pela mobilização da própria comunidade. O agente de promoção ambiental (APA) Marcelo Vidal, 42 anos, lembra que a implantação da estrutura foi fruto da articulação de lideranças, moradores e profissionais, diante do crescimento populacional e da necessidade de ampliar o acesso aos serviços de saúde. “Hoje a comunidade do Krukutu tem um ponto de referência e não precisa mais percorrer longas distâncias para atendimentos que podem ser resolvidos aqui”, explica.
Além de atuar na saúde coletiva, Marcelo desenvolve ações de territorialização e mapeamento de riscos e potencialidades da região, observando aspectos ambientais e culturais que impactam o cuidado. Ele reforça que a área possui trechos em sobreposição com duas unidades de conservação: a Área de Proteção Ambiental Capivari-Monos e o Parque Estadual da Serra do Mar e que quatro das aldeias que são assistidas pela UBSI Krukutu estão no município de São Bernardo do Campo.
Segundo ele, trabalhar nesse contexto exige atenção às especificidades locais, sem desconsiderar o significado que cada espaço tem para a comunidade. “A unidade aqui no nosso território auxilia bastante”, afirma a líder da aldeia Krukutu, Kerexu Mirim da Silva, 30 anos. “Muitas aldeias indígenas não têm isso. Aqui a gente consegue atender a comunidade, fazer exames e ter mais qualidade de vida para também conseguir realizar as nossas atividades.”
Kerexu destaca ainda que o cuidado em saúde, para o povo Guarani, não se restringe ao corpo físico, envolvendo também a dimensão espiritual e comunitária. “Hoje, estando no meio da cidade, a gente também tem doenças que são do mundo externo. Então, a gente precisa desses dois auxílios”, explica.
Ao contar a história das UBSIs Vera Poty e Krukutu, o território Tenondé Porã revela uma experiência singular da saúde pública paulistana: a de unidades que constroem, junto com a comunidade, um cuidado baseado na escuta e na valorização dos modos de vida indígenas.
Mais do que equipamentos assistenciais, as duas UBSs representam conquistas coletivas e pontos de apoio para uma atenção básica que reconhece que saúde, ali, também passa pela língua, pela espiritualidade, pela alimentação, pelo vínculo com a terra e pela confiança construída no dia a dia.
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